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domingo, 8 de maio de 2011

QUEM É ESSA MULHER

 

                          Pedro Macuco
 
                             Ela chega em silêncio.
                             Leva no colo um menino de 1 ano.
                             Na barra da saia, outros 2.
                             Na barriga, mais um.

                             Ela tem um sorriso aberto,
                             poucas palavras
                             e um prazer inquestionável de ser o que é.

                             Ela guarda na lembrança exemplos da vida.
                             Uma vida inteira de sonhos e esperanças.
                             Tem a voz rouca e os dentes amarelados.

                             Ela ama sem distinção.
                             Aguarda a chegada do quarto filho,
                             nina os outros mais crescidos,
                             aguarda um beijo de cada um
                             e vai dormir.

                             Quem é essa mulher
                             que acorda cedo, cuida da casa e das crianças?
                             Sai pra trabalhar e enfrenta o ônibus lotado,
                             as pessoas apressadas
                             e um sol enlouquecedor.

                             Quem é essa mulher que nasceu para ser mãe
                             e o faz com a bênção exclusiva de Deus?
                             Que sobe a escada desengonçada
                             e compra doces para as crianças.

                             No dia das mães
                             essa mulher é só alegria
                             retrato fiel da vida que leva.

                             No dia das mães,
                             Marinalva é o modelo que a vida precisa
                             para perguntar: quem é essa mulher?
                             E ouvir: é uma mãe, por si só, isso basta.


                             Vitória da Conquista, 08 de maio de 2011.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O MENINO E SUA CALÇA JEANS


Pedro Macuco

O menino tinha um corpo bem magro, quase esquelético. Ele sonhava ter uma calça jeans da mesma que usavam os galãs das novelas da Globo. Ele nunca sonhou ser um galã. Se conformava em ter uma calça jeans e "paquerar" (como se dizia naquela época) as meninas da sua rua. Ter uma calça jeans, lá pelos anos 80, era um
sinal de que o cara estava na moda e atualizado. O menino, quase esquelético, conhecia duas ou três ruas da pequena cidade e isso já era suficiente. O seu mundo era aquele e bastava. Pra que mais se a vida é tão rápida e as pequenas coisas são suficientes para a felicidade? Ele ouvia histórias de homens afortunados que viviam infelizes pelos botecos da cidade, afogando as mágoas e as dores de amor. Isso era lá felicidade? Pra ele uma calça jeans, azul e desbotada, era o que precisava para a festa de fim de ano na escola. Na sua cabeça de menino sem maldades e sem malícia, a vida girava como um pião, rodopiando na palma da mão e enchendo de imaginação a sua cuca quase infantil. Vida tranquila, de nenhuma saudade e de sonhos a mil. Um deles era ganhar de presente, no Natal, uma calça jeans.
Naquele Natal as coisas em casa não andavam nada boas. A família do menino não vivia um bom momento financeiro, teria um Natal simples, sem a tradicional ceia e os presentes. Era um menino mas já não tinha idade para colocar o sapato na janela e esperar Papai Noel. O amigo que lê essas linhas pode perguntar: e é Natal para você falar de ceia e Papai Noel? Seria esse um conto de Natal? Nada disso. É para falar mesmo da calça jeans. A tão sonhada calça jeans estava cada vez mais distante. Teria que esperar o próximo Natal ou esquecer de vez esse sonho. Para muitos um sonho bobo e realizável facilmente. Para ele, não. Num tempo de vacas magras e de necessidade de ter comida na mesa, a calça jeans era produtos superflúo. Naquela época os shorts feitos de sobra de roupas eram comuns e, naquele Natal, foi o que ele teve. Passada a decepção inicial veio a alegria das luzes coloridas nas ruas. Coisa que só o coração infantil poderia alcançar e esquecer as decepções.
Com o passar dos meses o sonho da calça jeans não morreu. A calça simbolizava liberdade, juventude, afirmação. Seria mesmo? Ele não sabia nada disso naquele período. Como saber se na sua cabeça havia espaço apenas para estudar, nadar nos rios, lêr gibis e correr como um louco nas esquinas da cidade. Naquele ano, depois de tanto sonhar, finalmente ganhou a calça jeans. Não era um jeans saído da loja, cheirando a produto novo. Mas era uma calça jeans. Naquela família os mais novos "herdavam" as roupas dos mais velhos. E, finalmente, ele herdou, uma calça do irmão mais velho. Foi uma festa e tanto. Anos depois o menino, que se tornara homem, escreveu alguma coisa mais ou menos assim "... Saio de casa apressado, visto uma calça jeans amassada e me deparo com você na esquina. Tomara que o azul da sua calça encha de esperança a minha vida.". O menino de outrora não sonhava ser Tarcísio Meira nem Francisco Cuoco. Queria apenas a liberdade de vestir uma calça jeans naquelas manhãs de sol que não voltam mais.

Vitória da Conquista, 19 de abril de 2011.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A SAUDADE ME FERIU


Pedro Macuco

 Outro dia andava pelas ruas da cidade e minha memória reviu algumas lembranças de coisas que vivi, de pessoas com quem convivi, de lugares por onde andei e de algumas músicas que nunca mais ouvi. Fiquei deveras preocupado como poderia, às três da tarde de um dia comum, sair por aí relembrando o que já se foi. Isso deve ser feito num sábado à noite, num domingo modorrento ou num feriado perdido em qualquer dia da semana. Mas numa terça-feira qualquer é sinal de que a situação não anda nada boa para meus sentimentos. Você pode até achar que estou ficando maluco ou sem ter o que fazer, mas não é bem assim. Sou de uma escola onde se ensinou a massacrar o coração com nostalgia e viver perambulando pelos quatro cantos da cidade em busca do que se foi e, certamente, nunca mais voltará. Os mais concretos, menos sonhadores dirão friamente: "isso é saudade, cara pálida.". Pois é, não é que é mesmo? Saudade, uma palavrinha que só existe na língua portuguesa e que, a cada manhã, arrebata minha vida e me deixa num turbilhão de sensações.

No tempo em que fazia faculdade, lá pelos anos oitenta, gostava, como todo jovem sonhador, de ficar escrevendo versos sem sentido e me achando o máximo, se bem que não tinha coragem de mostrar nada do que escrevia a ninguém. E gostava também de lêr muito. Foi numa dessas leituras que encontrei um texto anônimo sobre saudade que dizia mais ou menos assim "...saudade é vontade de ver de novo." Foi um soco no estômago. Li e reli o texto várias vezes, mostrei aos amigos da faculdade, copiei no caderno e registrei num gravador que tinha. Ninguém, na minha opinião, poderia definir melhor a saudade do que esse cidadão cheio de inspiração e que ninguém tinha notícia dele. Foi, por muitos anos, minha frase favorita. Era tudo que precisava para acalentar meu coração que, ao passar dos anos, viria a conviver com encontros e despedidas, com presenças e ausências, vida e morte. Saudade é vontade de ver de novo. Não precisa explicação. A frase se basta.

 Nestes meus quarenta e poucos anos vividos e revididos "saboreei" muitas saudades. Um amor perdido, um amigo que foi embora, meus pais que partiram pra sempre e muitos sonhos que escorreram pelas mãos sem que pudesse detê-los. Para saudade há outra definição fantástica " saudade é algo que fica de alguém que não ficou." É isso mesmo. Vivemos a procura de alguém, da cara metade, da mulher ideal, do confidente, do amigo exemplar, da melhor música, do livro de cabeceira, dos versos que acalentam, da própria vida. Cada um de nós carrega a sua história e os seus sonhos. Esses sonhos e essa saudade têm a cor da alma de cada um e minha.

Vitória da Conquista, 05 de abril de 2011

terça-feira, 29 de março de 2011

Meu poema


Pedro Macuco

Meu poema ultrapassa a fronteira da minha rua
e segue firme por caminhos tortos.
Segue por caminhos ali
naquela cidade esquecida do resto do mundo.

Meu poema visita as velhas casas da minha infância
e perfuma minha lembrança desconcertada e triste.
É no meu poema que enxergo meus pais
e o menino que um dia fui e que se perdeu nas entranhas do tempo.
Com pés descalços ando muito e não encontro nada.
Mas ando, recitando meu poema que esqueceu de fazer rimas.
No poema que agora escrevo, relembro o mar azul
e as cachoeiras onde banhei meu corpo magro numa manhã qualquer.

Meu poema faz de mim um sujeito esquálido e vazio
e reescreve minha história em páginas apagadas e amareladas.
Se o poema não me salvar,
salvo as palavras que insistem em batucar na minha cuca.
Vejo cada verso como um suspiro de dor
nesta tarde ensolarada e oca
E aprendo que viver é mesmo uma dor sem fim.

Meu poema faz de mim um homem qualquer
que cansou de dar murro em ponta de faca
e renasce a cada dia sem saber em qual rua seguir.
Abraço meu poema e como um moleque em festa
esqueço de tudo para não doer mais.

Vitória da Conquista, 29 março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

A ALEGRIA DO POVO

                       

Pedro Macuco


    Nos últimos dias tenho notado no semblante das pessoas a alegria pelo futebol que brota dos gramados do estádio Lomanto Júnior, em Vitória da Conquista. É uma alegria inquestionável e inigualável. Uma alegria que só a maior  paixão nacional é capaz de produzir. O futebol, como lá atrás disseram os nossos renomados cronistas esportivos, é a alegria do povo. O ópio, você diria? Não. A alegria mesmo. A mesma alegria que um dia foi motivo de orgulho nos pés de gênios como Pelé, Garrincha, Romário, Zico, Ronaldo Fenômeno  e, aqui na nossa terrinha Bahia, o querido Bobô, líder do Esquadrão de Aço, o Bahia, campeão brasileiro de  1988. Bobô e seu toque sutil de futebol primoroso e refinado. Mas não quero ir muito longe. Quero falar mesmo do futebol aqui da Suíça Baiana. O que orgulha todos os conquistenses, nativos ou não. Afinal, o futebol tem linguagem universal e é falado com maestria através dos pés e da bola.

     O futebol de Vitória da Conquista está com tudo e não está prosa, como diria Chacrinha, o velho guerreiro. Afinal de contas, as nossas duas equipes estão fazendo bonito no Campeonato Baiano. O alviverde, Vitória da Conquista, e o rubroverde, Serrano, estão na segunda fase da competição e chegam com boas chances de conquistar o título ou, pelo menos, continuar fazendo bonito. É uma festa ver a torcida comentando os times nas ruas, nas escolas, no trabalho, nos botequins. O futebol de Conquista está na moda e vem com tudo. Há 6 anos, se a memória não me engana, Vitória da Conquista era apenas lembrança no futebol e não tínhamos nenhum representante na elite da Bahia. Mas as páginas estão viradas pela história e a história agora é outra. Temos times sim e sai de baixo que nossos atletas estão chegando lá.

    Peço desculpas aos internautas que “frequentam” essa página Vida e Prosa  do amigo Daniel. Sei que todo mundo busca arte e cultura por aqui. Mas quem disse que o futebol não é arte? É sim. È arte na mais pura tradução. É genialidade, é talento, é cultura que vem de todos os rincões desse país que calça chuteiras para sorrir com as paredes. E quando falo de futebol nesse planalto baiano não posso esquecer de figuras que plantaram o que hoje colhemos. Gente boa de bola como os irmãos Kel e Zó, Piolho, Chico Estrela, Cavalinho e tantos outros que estão na história da bola conquistense. Não sei se vamos chegar ao título. Isso só as próximas partidas dirão. Entretanto já me sinto de alma lavada ao ver a boa campanha que nossos times fazem. É o futebol, a alegria do povo. O futebol que enche de mosaicos as nossas ruas, nossos becos e corredores. Eu disse sempre a mim mesmo, nas minhas horas de solidão: o futebol me resgata e me faz acreditar que a vida vale a pena. Exagero? Talvez. Certeza? A minha, é claro. Salve, salve nosso futebol do frio e do calor humano do povo desse lugar. Vamos todos ao Lomantão. O futebol nos espera.


Vitória da Conquista, 19 de março de 2011.

sábado, 12 de março de 2011

CRÔNICA DE DOMINGO


Pedro Macuco

Há dois anos, mais ou menos, sentei para escrever uma crônica sobre o domingo e, lógico, dei o título crônica de domingo, obviedade de quem escreve buscando ser fiel aos fatos. Pensei, cá com meus botões da surrada camisa, quero fazer uma crônica olhando para o sol de domingo pela manhã, quando o céu fica azulzinho e as crianças brincam na calçada de casa. Daquelas crônicas que lia nos jornais A Tarde e Tribuna da Bahia, no passado, nos meus tempos de outrora.Queria lêr de tudo e sonhava com o futuro olhando pelo buraco da fechadura como um dia escrevera o genial Nelson Rodrigues. A crônica tinha que chegar como os domingos molhados de ternura, embriagados de saudade. Sempre quis ser poeta na adolescência. Queria ser poeta, jornalista e até jogador de futebol, mas eu tinha o sangue rude dos pernas-de-pau e não passei de um medíocre ponta esquerda de dribles desastrados. Quem viveu comigo aquele tempo sabe do que falo. A crônica de domingo chega me fazendo refletir sobre tudo e, mais ainda, que durante muito tempo inverti as bolas. Fui velho quando era menino, sou menino agora que a maturidade bate à porta.

Sou capaz hoje de dar bom dia à natureza e me conformar apenas com o sorriso, a atenção, a palavra cuidada que recebo. A graça de estar pertinho das pessoas queridas e amadas é um milagre que contemplo dias e dias depois de acontecido. Os momentos são únicos e cada vez me convenço mais que a vida é uma missão. Missão de ser gente na essência da palavra, amar e ser amado, jogar na lata do lixo tudo que é egoísmo e ganância. Quero, mais do que nunca, viver meu tempo, porque meu tempo é esse e nenhum outro. Tudo isso, num domingo de manhã, com a música. E a música que ouço é uma continuidade de um poema que dizem ser de Jorge Luiz Borges, “ devia ter amado mais, ter sorrido mais, ter visto mais o sol se pôr.” É esse domingo se abrindo à felicidade enquanto apanho palavras para preencher o vazio. Sorte tiveram Carlos Drummond de Andrade e tantos outros poetas fantásticos. Eles souberam sempre escrever o que sentiam. Eu, como um menino ousado, fico por aí rabiscando versos que não viram rimas e nem chegam aos corações. Mas é domingo, meu camarada.

Aos domingos gosto de acordar cedo, aproveitar cada segundo desse dia extraordinário, escrever muito e apagar tudo logo em seguida. Como posso sonhar em escrever memórias se não consigo guardar nada que escrevo? Mas a crônica de domingo devo concluir. A semana é sempre corrida, estressante, com tempos escassos e caminhadas apressadas, olhares ligeiros e quase nenhuma palavra com quem se cruza nas ruas e avenidas. A gente tem a impressão de que a vida é crua e fria, amargurada. E dorme com os sonhos que ficaram guardados por tantas horas do dia que se vai. O sábado faz mais ou menos a intermediária. Faz a ligação entre a semana e o domingo. Ah, o domingo. Domingo de versos alegres, de amores a conquistar, de música suave e preguiça gostosa no corpo. Como disse no começo, gostaria de fazer uma crônica olhando para o sol de domingo pela manhã, uma manhã molhada de ternura, embriagada de saudade. O tempo da gente é esse, meus amigos.

Vitória da Conquista, 12 de março de 2011.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

ESPERO QUE VOCÊ GOSTE


Pedro Macuco

Espero que você goste dos Beatles
Espero que goste das praias azuis
Espero que goste de mim
e das ruas acinzentadas da minha cidade.

Espero que a gente se perca na primeira esquina
e que você goste das manhãs de Uruçuca,
Itabuna, Vitória da Conquista e Feira de Santana.

Espero te pegar cantando "Detalhes"
Espero que você saiba que Roberto Carlos é a parada,
mora?
Espero que você me pegue cantando ciranda
e pensando bobagens infantis.

O que mais espero é que você suba a Serra do São Bento comigo
Espero chupar cacau maduro na subida da serra
e me banhar nas águas do Rio Macuco como um menino aluado.
Espero muito por isso e por você.

Espero assistir uma novela e chorar copiosamente no capítulo final
Espero o primeiro ônibus no terminal
e espero cruzar com você na roleta do ônibus.
Vou esperar o tempo quando descer do ônibus
e te ver sorrindo com o vento frio na sua face.

Espero que você leia Jorge Amado,
ouça Chico e Bethânia
e leia uns versos de Manoel Bandeira e Florbela Espanca.
Mas espero mesmo que você saiba o que é ser botafoguense.

Espero que a cidade seja próspera
Espero um lugar florido como as manhãs de primavera,
é o que espero.

Vou esperar que você se canse de andar com pressa.
Espero não ter pressa.
Espero ter a preguiça inteligente de Caymmi.
Enquanto espero no passeio do jardim
vou te esperando me esperar.

Vitória da Conquista, 26 de fevereiro de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

MINHA JAQUEIRA


Pedro Macuco

Na minha terra, ainda menino, aprendi a admirar pessoas, bichos, árvores. Amava andar nas ruas, sem compromisso com nada, coisas de garoto. Vivia olhando o rio da cidade, suas águas mansas e sem pressa de correr para encontrar o azul do mar. Era um tempo, como diria Chico Buarque na canção Todo o sentimento, “um tempo da delicadeza”. Era assim, entre a escola que me ensinou o bê-a-bá da vida e minha casa, que eu andava pra lá e prá cá, jogando futebol com os amigos de outrora e admirando as coisas. Podia ser um ônibus que ligava minha cidade ao mundo ou um velho cacaueiro com seus frutos doces e de ouro. Foi naquele tempo, aquele da delicadeza de Chico, que pude viver os melhores momentos da minha vida. Quando nada me preocupava, a não ser trocar a comida do passarinho na gaiola ou estudar para finalmente aprender as quatro operações matemáticas, um problema que me persegue até hoje.

Pois bem, amigos. Naquela época, que há muito dobrou a esquina do tempo, eu li meu primeiro livro. O meu pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos. No livro infantil Zé Mauro conta a história do menino Zezé que conversava com o pé de laranja lima plantado na casa em que a família dele passou a morar. Eu sempre fui de conversar com bichos: cachorros, passarinhos e gatos mas jamais troquei um dedinho de prosa com um pé de pau. Mas tinha uma árvore, numa roça bem pertinho da cidade, que me encantava. Era uma jaqueira, frondosa, alta. Os bagos das jacas adoçavam meu paladar nas tardes de vadiagem e hoje encharcam de saudade a minha lembrança. Coisas de um cara que nasceu para o saudosismo e com ele deve morrer, qualquer hora dessas. A jaqueira, por decisão única e exclusivamente minha, passou a ter dono e você já deve imaginar quem fez reforma agrária, por conta própria naquele pequeno espaço, não é mesmo?

A vida me afastou daquela jaqueira e de muitas outras coisas ao longo do tempo. Hoje, passados mais de 30 anos, não sei mais daquela jaqueira, nunca mais voltei lá naquela roça, deixei de lado os banhos de rio, as caminhadas por dentro das plantações de cacau e deixei, por tomar consciência, de prender passarinhos na gaiola. Nunca mais provei daqueles bagos inesquecíveis de uma jaca cheia de simbolismo e lembranças na minha memória. Contei essa história depois de encontrar na internet a foto de uma jaqueira que parece a minha, se é que há alguma jaqueira diferente da outra. Hoje, sentado em frente ao computador, lembrei da minha jaqueira e, por tabela, de tantas outras coisas que fizeram parte da minha infância. Árvores, bichos, pessoas. Minha escola, minha casa, minha rua. Uma jaqueira mexeu comigo nesta noite de sábado. Vá entender...

Vitória da Conquista, 19 de fevereiro de 2011.